Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Diva do canto e transfeminista, Vivian Fróes luta e crê na superação

Diva do canto e transfeminista, Vivian Fróes luta e crê na superação


PODCAST TRANSFORMANDO AS ARTES

EPISÓDIO BÔNUS: VIVIAN FRÓES

Sobe som   

SOBE SOM PRECISO ME ENCONTRAR – LINIKERDeixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

TRECHO DA ÓPERA A CARTOMANTE

CAI A BG

MARI: Nós ouvimos da introdução deste episódio bônus do podcast TRANSformando as Artes um trecho da ópera A Cartomante, de Eduardo Frigatti. Baseada em conto de Machado de Assis, a produção é do projeto de extensão Ópera na UFRJ, da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na cena, Camilo, interpretado por Marcos Vinícius Lima, consulta a cartomante, papel de Vivian Fróes.

Além de cantora lírica e pianista, Vivian é preparadora vocal e regente de corais. Ela é a voz da vinheta da nossa série, na qual entrevistamos mulheres e homens trans e pessoas não binárias que dedicam suas vidas aos mais variados ramos artísticos. A produção marcou as sete semanas entre o Dia Internacional Contra a Homofobia, 17 de maio, e o Dia Internacional do Orgulho LGBT, 28 de junho.

SOBE SOM

MARI: Quando começou a estudar canto, Vivian tinha 13 anos e o gênero masculino em seu nome e documentos. Por isso, o tom mais agudo, que lhe parecia natural, era recebido com estranhamento e preconceito. Hoje, os 32 anos, sobe nos palcos como uma diva e dá aulas de canto e preparação vocal. Além, claro, de ser ativista e transfeminista.

Olá, eu sou Mariana Tokarnia, repórter da Agência Brasil. Conheça agora um pouco da história da Vivian Fróes.

SOBE SOM

MARI: Vívian, pra começar, fala pra gente o que é arte pra você?

VIVIAN: A arte é um local de salvação, né, é como um reduto, um oásis, um templo onde você se encontra a si mesmo. Não só a si mesmo, como aquilo que você não é também, né, as muitas possibilidades de ser e de vida, de trajetória, de existência, de história, de futuros e até de passados também, que você pode revisitá-los. Então é um local de muito acolhimento para as pessoas LGBTI+. Para as pessoas negras também, todos os recortes de identidades que são excluídas socialmente, né, os indígenas e, as pessoas heterossexuais, cisgêneras, né? Porque todos somos humanos, né? Isso é uma coisa que eu tento sempre abordar no meu trabalho, nas minhas falas, né? Enquanto ativista também. É trazer esse encontro com esse outro, né, que a gente sempre trata como se fosse diferente. E muitas vezes ele realmente se comporta como sendo contra as nossas lutas e etc. Mas sabendo que não são todos. Então a arte tem esse poder para todos os seres humanos, né? Eu percebo que grande parte dessa insanidade, assim, que a gente vê, pessoas extremamente radicalizadas, homens extremamente radicalizados, que têm assumido o poder e defendido pautas totalmente retrógradas, teocráticas, misóginas, LGBTIfóbicas, xenofóbicas, capacitistas e etc. É uma forma de grito dessas pessoas também, que de vítima não tem nada, mas é como se fosse uma manifestação desse desejo daquilo que não se encontra. Então, eu vejo como a arte sendo esse local em que a gente pode encontrar essa forma de curar o mundo também.

MARI: Como você vê o incentivo para fazer arte no Brasil? É possível viver de arte? E também em outros aspectos da vida, né, qual a importância da arte?

VIVIAN: A gente não tem visto na maior parte das escolas, uma valorização para o fazer artístico, para a disciplina de música, para a disciplina de artes. Isso é um problema cultural do nosso país. Tem a ver com o legado da colonização, mas tem a ver também, eu acredito, com um projeto de poder, né. Porque eu acredito que quando você impede a valorização da arte frente à formação dos jovens e desses adultos, né, você está impedindo essas pessoas de desenvolverem uma série de habilidades de entendimento e de expressão que vão ser necessárias quando eles se tornarem adultos. É como se você estivesse formando cidadãos não plenamente, pela metade. E a arte, ela tem essa função muito importante da formação do cidadão. Não é que ele vai seguir a arte como profissão, mas ele vai desenvolver uma série de habilidades que, sem o fazer artístico, é muito difícil de se desenvolver. Existem pesquisas que falam sobre isso, que o Brasil tem muito analfabetismo funcional, que é essa capacidade mais refinada de entendimento, né. Então, a arte tem essa função também de combater esse analfabetismo funcional, né. E se a gente tivesse essa formação que envolva uma experiência artística desde a infância, bastante arraigada, né, na nossa cultura, nas nossas escolas a gente teria uma sociedade muito melhor a gente precisa da arte e da transformação que ela gera para todes.

MARI: E a voz, né, pra você que faz dela o seu instrumento de trabalho, qual a importância da voz na identidade de gênero?

VIVIAN: A voz, ela carrega um forte significado pro ser humano, de um modo geral, né. Então, não só nessa humanidade, nessa performance humana, e nessa expressão de arte, dentro do que a voz significa na arte, como, e aí indo de encontro frontalmente com a identidade das pessoas trans. A voz é um elemento extremamente importante na vivência e na identidade das pessoas trans, né. Então, a voz tem um peso muito grande na questão de gênero das pessoas trans, né, em como se dá essa identidade, essa formação dessa identidade dessa pessoa trans, não só internamente, mas como socialmente também.

A nós pessoas trans é sempre exigido uma performance social de gênero muito mais exigente do que a pessoas cisgêneras. A gente é sempre muito mais cobrada, no caso as mulheres trans, né, de uma externalização de uma feminilidade do que muitas vezes uma mulher cisgênera. Assim, por mais que a exigência sobre o corpo trans, em alguns aspectos, por a gente viver numa sociedade patriarcal, machista, as mulheres trans têm uma questão da aparência, né, muito mais cobrada. E quando ela não corresponde, ela tem uma resposta muito mais violenta da sociedade. Os próprios dados de assassinatos do Grupo Gay da Bahia, não só de assassinatos, como de agressões, insultos, etc, e da Antra e também da Rede TransBrasil mostram exatamente isso. Que a maior parte das vítimas de violência literal, direta, por parte de outras pessoas na sociedade, são as mulheres trans e as mulheres travestis, né? Isso não é por acaso. Então, eu tô sempre refletindo sobre isso e trazendo isso no meu trabalho e eu fico muito feliz, muito grata por estar representando não só enquanto mulher trans, mas através do meu trabalho artístico, toda essa superação, essa representatividade para as pessoas.

MARI: Vivian, você diz que a sua voz te moldou. Como isso define ou influencia a sua identidade?

VIVIAN: Nunca definiu. A minha voz não define a minha identidade de gênero. Assim como a minha identidade de gênero também não é definida. Isso é uma questão que a maior parte das pessoas não consegue entender. Por isso que existe tanto preconceito, né. A pessoa trans, na verdade, por fora as pessoas acham que a gente se define. Mas, na verdade, o que acontece por dentro é algo absolutamente natural. A gente sempre se sentiu assim, entende? Não é uma coisa que vai de fora para dentro ou numa escolha. É algo que parte de dentro para fora, da mente. E muito maior que a mente, inclusive. É algo espiritual, não dá para explicar. Faz sentido uma criança de 4 anos, 5 anos de idade, ficar pensando que ela vai ter que viver uma encarnação inteira e esperar até o dia de morrer, pra poder, quem sabe, talvez numa próxima encarnação nascer no corpo ‘certo’, entre aspas, nascer como menina, como se é de fato, e como se sempre se sentiu e queria ter nascido? Faz sentido uma criança de 5 anos pensar uma coisa dessa? Uma criança de 4 anos pensar uma coisa dessa? Não, não faz sentido. Justamente porque é algo natural, é algo que vem com você. E é assim que eu pensava com 4, 5 anos de idade.

MARI: Sim, perfeito… pode falar um pouco então sobre essas dificuldades que as pessoas trans enfrentam para se posicionar e se entender dentro da sociedade, né, dentro desse sistema cis-hetero-normativo em que a gente vive, com questões como essas, que aparecem muitas vezes ainda desde a infância?

VIVIAN: Eu senti uma angústia muito grande, muito forte, algo que não dá nem pra explicar em palavras o que que era. E essa angústia eu carreguei a minha infância inteira e a minha adolescência também. Só que quando você é criança, você tenta, vai se adaptando com o meio, com o que você tem, né? E diante daquilo que é imutável, você não pode fazer nada, né? Era assim que eu pensava, obviamente, quando eu era criança. Eu não tive nenhum contato com transexualidade. Talvez, se eu tivesse tido, eu poderia ter me entendido muito mais cedo, que é o que tem acontecido com as crianças hoje em dia, que acabam entendendo mais cedo por ter algum tipo de contato, e aí acabam se entendendo muito mais cedo, o que é muito melhor, né, que aí essa criança vai sofrer muito menos. Eu ficava muito pensativa, muito triste e pensando por que eu tinha nascido naquele corpo. É muito estranho isso, porque é como se eu me visse de fora e olhasse, né? Eu não era uma criança normal. Tanto que meus amigos não se aproximavam de mim, eu não me enturmava, sabe? Eu sempre fui uma criança que gostava muito de entender as coisas também, acho que numa forma talvez de me autodeterminar no mundo e me entender, eu tentava entender as coisas, entende? Essa era a forma que eu, enquanto criança, encontrei pra para explicar aquilo que eu estava sentindo, para raciocinar sobre aquela incongruência absoluta. E era assim que eu verbalizava dentro de mim, porque eu também não falava isso pra fora, porque desde muito criança eu já vinha sofrendo homofobia na escola, né? Então, desde que nasci, eu já sentia a repressão pelo fato de eu ter trejeitos femininos, de eu gostar de coisas femininas. E aí eu não verbalizava essas coisas para ninguém, para meu pai, minha mãe, para ninguém, até porque eu tinha muito medo. Desde muito pequena, desde 4, 5 anos de idade, eu aprendi que ser gay era horrível, né? Eu tinha pavor de alguém saber. Eu já sabia que eu era gay desde 5 anos de idade. Eu me lembro de eu no maternal ouvindo isso dos meus colegas. Gaysinho, boiola, bicha, aquela coisa. Imagina, com 5 anos de idade, 4, 5 anos, no jardim de infância. É surreal, né?

MARI: E como entra a questão da sua voz nisso tudo, né, sendo um adolescente que sofria transfobia e se desenvolvendo como cantora?

VIVIAN: Na minha adolescência, eu era confundida com mulher na rua o tempo todo. Até atendendo o telefone, achavam que eu era minha mãe, falavam ‘senhora’. Aí entra a parte da voz. A minha voz, ela sempre foi feminina, entendeu? Quando eu era criança, eu ouvia assim dos meninos ‘ah, por que você fala com voz de menina?’ Eu não soube responder, porque aquela era a minha voz. Eu sempre cantei com voz feminina, eu não via a minha voz quando eu cantava com voz feminina, como se eu estivesse querendo me passar por uma mulher. Isso nunca existiu. A voz feminina veio naturalmente porque eu tinha aqueles agudos. Pra mim era totalmente natural cantar naquela altura. Não era algo que eu forçava para parecer. Mas é claro que há uma construção também, né? Quando você pertence a um determinado gênero, você vai sendo moldado pela sociedade a falar de um jeito, a falar numa altura. A mulher, ela passeia mais entre as notas. O homem não, fala mais numa nota só, né? Então, você vai se anulando. Então, eu tive uma fase na minha adolescência que eu anulei a minha voz falada, cantava escondida, com voz feminina. Eu não cantava na aula de canto com a minha voz, de fato, que eu gostava de cantar quando eu estava em casa. Até que um dia eu cheguei na minha aula de canto e falei, ‘professor, eu tenho uma música que eu queria te mostrar, mas ela é bem diferente, tá?’ Aí foi a primeira vez que eu cantei com a voz que eu sempre cantei, né? Mas em público, na aula de canto, na escola de música Villa-Lobos, né? E aí eu cantei e toquei no piano ao mesmo tempo. Eu fiquei muito surpresa com a reação da turma, porque no final ficou aquele silêncio, assim, o pessoal me olhando, e eu morrendo de medo, né, da reação das pessoas, aí de repente todo mundo, ‘uhul, não sei o que’, começou a bater palma, parecia aquelas cenas de filme, né, você acha que vai ser repreendido, assim, fortemente, aí de repente o pessoal começa a comemorar. Aí depois que eu cantei, o meu professor falou assim, ‘quero conversar com você no final da aula’, aí eu falei ‘pronto, acabou, ferrou, vou morrer, vou morrer, ele vai falar que é um absurdo’. Aí meu coração pulava pela boca, aí quando chegou no final da aula, meu nome não era Vivian, meu nome era Vinícius, não tenho problema nenhum de falar isso, eu tenho orgulho do meu nome antigo. Aí ele falou assim, ‘Vinícius tem uma coisa muito importante pra te falar, muito séria. Sua voz é incrível, você é maravilhoso, você vai fazer muito sucesso, não sei o quê’. Eu lembro exatamente o que ele falou o professor Marcos Teixeira. Ele falou assim, ‘você é impressionante, a sua voz é surreal, você tem um timbre completamente feminino e num corpo de menino, isso é impressionante, isso é muito chocante, assim, a gente olhando e tal’. Mesmo sendo um menino andrógeno e tal, mas eu era um menino, né? Daí ele falou, ‘olha, você vai sofrer muito no meio da música, vai ter muita gente querendo puxar seu tapete, muita gente querendo passar por cima de você, mas resista, resista, vá até o final, não desista. Não deixe ninguém interromper o seu caminho’. Ele falou isso pra mim, é impressionante, porque foi exatamente isso que aconteceu, né, e acontece até hoje.

MARI: Qual o significado dessa virada para você? De ir a público com seu verdadeiro tom de voz? Você continuou encontrando muitas barreiras,

VIVIAN: Antes, o problema era que eu era um menino com uma voz completamente feminina, de soprano. E aí, me falavam que isso era impossível, que isso não existia, me perguntavam se eu já tinha feito cirurgia, como se eu fosse castratti, né. Eu falava, ‘não, não fiz cirurgia’. ‘Ah, então se você não fez cirurgia, sua voz não existe, você não pode cantar assim, porque castratti não existe mais, era uma coisa do período barroco, então sua voz não existe, você tá cantando com uma voz falsa, falsete. Essa voz não pode ser usada no canto, é uma voz que é fake, ela é inútil, é proibido usá-la’. Né, então eu sempre fiquei escutando isso, ou diretamente ou indiretamente, de forma a sempre falsearem a minha voz. Quando fazem isso, você começa a, sem querer, manifestar até uma estética de uma voz falsetada, né, porque as pessoas estão falando que sua voz não existe e tal, aí você começa a se limitar àquela realidade e pensar, poxa, vai ver realmente, minha voz não é capaz, e aí você começa a prender a laringe, aí você começa a fazer um falsete mesmo, porque todo mundo é capaz de fazer falsete. Então, a partir do momento que pintam toda uma estética para você, te botam numa caixinha de uma voz ruim, de uma voz que é falsa, de uma voz que não existe, de uma voz que não é possível, você vai ter problemas por cantar assim, no futuro. Aí você vai entrando naquela estética e você não vai nem aprender o jeito de fazer correto. Você vai ficar limitado ali, aquele mundinho, aquela caixinha que estão te enfiando. E você não vai conseguir nem sequer vislumbrar qualquer coisa fora desta caixa. Mas algo sempre me fez continuar. Eu sempre quis estudar mais a fundo o canto, mas por conta disso eu acabei investindo na minha formação pianística, que eu sempre quis. Na verdade, eu queria aprender os dois sempre, né? Mas aí eu fui dando mais gás ainda no piano. Tanto que quando eu fiz prova para a UFRJ, eu fiz prova de piano. Tirei nota máxima, nota 10. Entrei para o curso de regência coral. E aí o canto foi sempre ficando meio de lado, assim. Eu cantava popular, aí eu tive uma banda de heavy metal. Também na banda de heavy metal não me colocaram como vocalista, porque, não que eu não tivesse pedido. Eu até pedi, mas aí preferiram que eu ficasse no teclado. Porque de fato tecladista é um mundo inóspito no heavy metal praticamente, tem pouquíssimos. Então o canto ficou sempre adjacente, uma coisa assim meio abandonada. Mas aí desde que eu comecei o trabalho coral, eu procurei a Veruschka Mainhard, na UFRJ, em 2009. E pedi, pelo amor de Deus, se ela podia ouvir minha voz, porque eu queria muito uma opinião dela em relação à minha voz, porque eu tava ouvindo um monte de coisa, e eu queria saber se eu podia cantar daquele jeito realmente ou não, se eu podia no coral da Valéria Matos ir pro naipe de soprano ou de contralto, porque eu não queria mais cantar no naipe de tenor. Aí a Veruschka, muito solícita, muito gentil, como ela sempre foi, uma pessoa extremamente acolhedora, ela falou, claro, claro, vamos lá. Aí a Veruschka ouviu minha voz, fez vocalizes de tenor e de soprano para mim, né. Aí eu perguntei, ‘e aí Veruschka, o que você achou?’ Ela, ‘olha, você tem uma voz muito bonita, muito boa, tanto de tenor quanto de soprano, ou de sopranista, ou de contratenor. Qual voz você vai utilizar é algo que você vai ter que refletir lá no seu íntimo, lá no mais profundo do seu ser, e escolher a voz com que você mais se identifica e mais representa você’. Nossa, eu fiquei muito emocionada, né? Imagina, depois de tudo que eu escutei, né? Todos esses professores que eu tive na minha vida, né? Eu fiquei muito emocionada, eu lembro de ficar com lágrimas nos olhos na hora ali e sair muito feliz de lá, radiante, sabe? Porque foi a primeira vez que eu escutei algo que me alentasse. Aí a Valéria Matos, eu procurei de novo, falei, ‘Valéria, fui pra Veruschka e tal, ela falou isso, isso, aquilo’. Aí a Valéria Matos falou,’ olha, Vívian, eu deixaria você cantar no naipe de contralto, mas só se você conseguir um professor de canto que possa lhe orientar, porque tenho medo de você não saber usar sua voz e acabar prejudicando’. Aí eu falei, ‘não, com certeza, Valéria, concordo plenamente, vou fazer de tudo para achar um professor e tal’. Aí eu fiquei na caça de um professor, né?

MARI: Mas a aceitação da sua voz no meio artístico ela mudou depois que você fez a transição?

VIVIAN: Depois, a grande questão foi que, ‘ok, agora você está como mulher e tal, sua voz está encaixando mais com você, mas sua voz continua sendo falsete’, ‘sua voz não é de uma soprano, ou de uma contralto, ou de uma meso’, porque eu tenho uma extensão de sopranista também, né? E aí eu continuar sofrendo preconceito por conta de, ‘ah, sua voz é diferente da de uma outra mulher’, ‘ah não, ela é a voz plena, a sua é falsete’. Então assim, mal ou bem eu continuei sofrendo preconceito. Foi uma grande trajetória para tentar descobrir qual era a real natureza da minha voz e aí foram 20 anos estudando canto para poder hoje saber que minha voz é aí foram 20 anos, né? 20 anos estudando canto para poder hoje saber que minha voz é o que ela quiser. Aliás, a voz de toda pessoa trans é a voz que esta pessoa quiser. Ela é capaz de tudo, mas é claro que você precisa de um professor com muita experiência para poder saber te passar a técnica necessária para que você possa usar a sua voz.

MARI: Nossa, então, apesar de melhora a aceitação do seu tom, as barreiras e o preconceito continuaram…

VIVIAN: Sim, melhorou, porque eu podia, pelo menos, passar desapercebida quando eu cantasse em eventos, em locais, e não precisaria mais ouvir certas coisas, assim, pelo menos não imediatamente, né? Existiria uma filtragem das pessoas ao ver uma mulher cantando com voz feminina, no caso uma mulher trans, né? Mas por outro lado também, olha que interessante, eu perdi uma parte grande do prestígio que eu teria se eu tivesse tido uma carreira de contratenor, que seria um menino cantando com voz de mulher, né, embora eu não tenha mudado praticamente nada da minha aparência, eu tô idêntica quando eu tinha 19, 20 anos, que era antes de eu começar a harmonização né, o hormônio não fez quase nada em mim. Mas eu me visto com o vestido, ou deixo o cabelo grande e tal, e tudo isso acaba remetendo ao gênero feminino, então tira um pouco da surpresa das pessoas. Você acaba tendo uma voz que as pessoas acham que é comum. ‘Ah, uma voz comum, uma mulher cantando com voz mulher, ah, ok’. Antes tinha aquele deslumbramento, ‘nossa, um menino cantando com essa voz feminina, não sei o quê, ai, contratenor’. Esse deslumbramento sumiu. E que é irreal, né? Porque eu continuo do mesmo jeito, só… Isso é importante que se diga também, o hormônio não mudou em nada a minha voz. Absolutamente nada. E não me fez ganhar nenhuma nota, tá? Infelizmente, né? Porque se o hormônio desse notas pro agudo, né? Que bom, mas não. E aí, uma vez, quando eu fui na Villa-Lobos, muitos anos depois, já como Vivian, eu cheguei pro meu professor de canto, o Marcos Teixeira, aí eu falei pra ele que eu tava na UFRJ e tal, aí ele olhou pra mim e ficou muito surpreso, porque ele não sabia que eu tinha virado mulher, me identificado como Vivian. Mas aí ele falou assim, ‘ah, mas por outro lado, agora você perdeu aquela coisa daquele vislumbre, assim, né, de olhar pra um menino cantando com voz de mulher’. Acabou perdendo um pouco isso, né. Ele falou assim pra mim. E é, de fato, né, interessante, né, mas acaba sendo um preconceito também, porque a sociedade é muito misógina, né, então o que uma mulher faz não tem valor, né. E tem a negação do meu passado, né? Eu fui um menino e eu continuo sendo trans, eu continuo tendo meus traços de menino também, de quando eu era menino, a minha voz falada mesmo. Eu sei que eu posso falar mais agudo. Se eu falasse assim, talvez combinaria mais com o meu gênero atual, mas eu não falo porque eu sinto que é estranho, que eu não me identifico, as pessoas também estranham. Eu acho que no fundo, assim, por mais que você se identifique com uma mulher trans, com toda a feminilidade, você tem um pouco de não binário também, de não binária. Toda mulher trans tem um pouco de não binário, eu acredito. Porque, na verdade, não tem a ver com o gênero necessariamente homem ou mulher, tem a ver com a feminilidade ou a masculinidade, entendeu?

MARI: Vivian, entrando no tema desse período que celebramos o nosso podcast, entre o Dia Internacional Contra a Homofobia e o Dia Internacional do Orgulho LGBT, em termos de direitos e reconhecimento, as pessoas trans conseguiram alguns avanços nos últimos anos, né?

VIVIAN: A gente teve uma vitória no âmbito da saúde, que foi a despatologização, em parte, porque a gente continua sendo vista como uma questão, uma doença, um transtorno, né. Foi uma luta dos movimentos trans, foi uma luta global, que foi a retirada da classificação da transexualidade enquanto transtorno de doença mental e ela passou a ser considerada não mais um transtorno mental e sim uma questão de incongruência sexual, que está em outro CID, né, mas a gente saiu de um CID mais pesado para um mais leve. Então, não podemos negar que existe de de fato, uma incongruência de gênero na vivência dessas pessoas trans, que essa incongruência ela vem desde a infância, mas que não necessariamente ela é uma incongruência de fator biológico ou de uma questão genética. A gente não pode esquecer que o preconceito, a discriminação e tudo essas questões sociais, elas não são uma exclusividade das pessoas heterossexuais e cisgêneras. Nós todos reproduzimos esses preconceitos. Por mais que eu seja uma militante, LGBTI+, antirracista, antigordofóbica, antipatriarcalista, antitudo e feminista, transfeminista, eu não posso jamais não ter a humildade de reconhecer que pode haver alguma situação em que eu deslize. Então, é necessária a humildade por parte das pessoas sempre, né? De reconhecer seus privilégios. A gente é passível a erro. Então, a gente tem que estar sempre um passo atrás, a gente tem que estar sempre tomando cuidado. Isso se chama respeito, cuidado ao próximo. Isso se chama também direitos humanos. Por isso que existe um ataque tão forte aos direitos humanos. Quando a gente, ocorre um deslize como esse, hoje em dia, não é mais apenas um deslize, não é mais apenas uma questão imoral, é uma questão ilegal, porque existem leis que impedem que as pessoas façam isso, que cometam discriminação, que incorram nesses erros. Dito os erros, né, porque quando a gente recorre aos erros, e mesmo sabendo da legislação, ou se a gente não sabe, a gente está em falta com alguma coisa, num país que já tem direito para essas pessoas, não são erros, são mais do que isso.

MARI: Pra gente finalizar, Vivian, como é pra você hoje ser uma referência tanto artística quanto no ativismo trans?

VIVIAN: É muito importante, né? Eu fico muito honrada de hoje estar podendo mostrar e ser uma representatividade positiva nesse sentido, né? De superação, de conquista. O que eu gostaria que passasse em relação às minhas vitórias enquanto pessoa trans, enquanto mulher trans, enquanto cantora trans, é que existe muita luta, mas é possível a gente superar. E eu olho esse lugar que hoje eu ocupo e, às vezes, me surpreendo até. Coisa que é natural, né? Até porque eu mesma luto por essa representatividade, porque eu sei o quão ela é importante, né? Mas quando eu me deparo com alguém que vem para mim e fala, ‘nossa, você é uma pessoa que eu admiro muito, acompanho seu trabalho, sou sua fã e tal, não sei o que, me inspiro muito em você e tal’. Isso me faz muito feliz. É ganhar a vida, né? Uma coisa que eu digo é que eu não faço isso com o objetivo de nada. É uma coisa que é muito natural. Eu fui para a arte muito naturalmente. É uma coisa que sempre ocorreu de uma forma muito natural, como se fosse respirar, sabe? É uma coisa muito fisiológica. E o meu ativismo, da mesma forma que a música, que veio dessa forma tão natural, ele também veio assim, né? Então, é uma felicidade gigantesca, né, quando eu vejo que eu estou sendo essa representatividade positiva pra essas pessoas, pra sociedade, eu fico muito feliz. Sensação de duas coisas, de dever cumprido e de estar cumprindo o meu papel, que é o meu objetivo enquanto ativista, porque eu vivo para tentar transformar positivamente o mundo. Isso sempre foi uma trajetória, uma busca minha. Acho que desde sempre, desde criança mesmo, sempre fui uma pessoa intensa, emocionalmente, sempre fui uma pessoa extremamente sensível. Sou assim até hoje, né. Então, não só enquanto ativista, mas enquanto artista porque o artista ele vive disso de ter esse retorno do público porque senão a nossa arte não faz sentido nenhum. Na verdade, a arte ela só acontece com o público, então, é uma troca. Toda vez que eu me apresento é uma troca.

MARI: Perfeito, Vivian, muito obrigada pela sua participação aqui no nosso podcast.

VIVIAN: Eu agradeço muito esse convite, eu fiquei extremamente feliz, extremamente honrada. Espero poder contribuir na conscientização das pessoas e que assim a gente possa transformar as nossas artes, que assim a gente transforme a nossa sociedade, transforme a voz, transforme a música e possamos dessa forma transformar o nosso planeta. Muito obrigada por essa incrível oportunidade. Um beijo imenso.

SOBE SOM

MARI: E hoje vamos finalizar o podcast ouvindo mais um trabalho da Vivian, cantando a música Natureza de Deus, de Leandro Moraes, que faz o acompanhamento ao piano, junto com Karen Barbosa ao violoncelo.

SOBE SOM NATUREZA DE DEUS

CRÉDITOS:

Você ouviu o episódio bônus do Podcast Transformando as Artes. Uma produção da Radioagência Nacional em parceria com a Agência Brasil. Na série, nós apresentamos oito entrevistas com homens e mulheres transgênero e não-binárias que trabalham nas mais variadas vertentes artísticas. O especial marcou as sete semanas entre o Dia Internacional Contra a Homofobia, 17 de maio, e o Dia Internacional do Orgulho LGBT, 28 de junho.

A apresentação foi minha, Mariana Tokarnia.

A entrevista com a Vivian Fróes Ferrão teve a colaboração de Akemi Nitahara e Vinícius Lisboa.

Adaptação, edição, roteiro e montagem de Akemi Nitahara

Revisão e coordenação de processos de Beatriz Arcoverde

Gravação de Virgílio dos Santos

A voz da nossa vinheta é de Vivian Fróes Ferrão

Versão em Libras da equipe de tradução da EBC

Utilizamos as músicas Preciso me encontrar, de Candeia, na voz de Liniker acompanhada de Ilú Obá De Min, trecho da ópera A Cartomante e a música Natureza de Deus.

A produção também está disponível nas plataformas de áudio e com interpretação de libras no Youtube. Todo o conteúdo da Radioagência Nacional tem acesso livre e gratuito, um serviço público de mídia da EBC.

Conheça outras produções, como a série sobre os 50 anos da cultura Hip Hop, o Sala de Vacina, sobre os 50 anos do Programa Nacional de Vacinação, e o especial Futuro Interrompido, que debate o país que estava em construção quando ocorreu o golpe militar de 1964.

Muito obrigada por ter nos acompanhado até aqui! E até a próxima!

SOBE SOM VIVIAN FRÓES

ENCERRAMENTO DA TRILHA DOS CRÉDITOS

Sobe som   



Link da fonte aqui!