O resultado de um leilão realizado pelo governo federal para a contratação de energia de reserva deve gerar um impacto financeiro direto no bolso dos brasileiros, com projeções de aumento de até 10% na conta de luz residencial e de 20% para o setor industrial. A medida visa sanar um gargalo do sistema elétrico nacional: a insuficiência de fornecimento no horário de pico, entre as 18h e 21h, mas a estratégia adotada é alvo de críticas por especialistas e entidades do setor.
Para suprir essa demanda, o certame realizado em março focou na contratação de usinas termoelétricas, que operam com custos mais elevados e maior emissão de poluentes. Dados revelam que 86% da energia contratada terá origem em combustíveis fósseis. A operação dessas usinas exige que sejam ligadas horas antes do período de necessidade, resultando em queima de combustível e gastos operacionais mesmo enquanto a geração solar ainda está ativa.
Falhas regulatórias e benefícios a grupos privados
O processo foi marcado por mudanças repentinas nas diretrizes financeiras. Dias antes da disputa, o Ministério de Minas e Energia afirmou na Câmara dos Deputados que os preços estavam defasados, o que teria afastado o interesse até mesmo da Petrobras. Contudo, às vésperas do leilão, os valores previstos nos estudos técnicos sofreram um reajuste de 100%, dobrando o teto de remuneração.
Esse cenário permitiu que dois grupos privados garantissem contratos bilionários: a Eneva e a Âmbar. Estima-se que as empresas possam receber mais de meio trilhão de reais ao longo da vigência dos contratos pelo negócio. O custo dessa contratação será repassado integralmente ao consumidor por meio do chamado encargo de reserva de energia, que deve ser pago mesmo que as termoelétricas nunca sejam efetivamente acionadas.
Alternativas tecnológicas e o atraso brasileiro
Para especialistas e para a Frente Nacional dos Consumidores de Energia, o modelo escolhido representa um erro estratégico. Enquanto potências globais como China, Estados Unidos e países da Europa investem pesadamente em sistemas de armazenamento de energia eólica e solar em baterias de larga escala, o Brasil insiste na dependência térmica.
O uso de baterias permitiria armazenar o excedente de energia limpa gerado durante o dia para distribuição no horário de pico. De acordo com análises técnicas citadas pelo Jornal da Band, se a demanda tivesse sido atendida por tecnologias de armazenamento, a relação custo-benefício seria positiva para o cidadão. Em vez de um aumento tarifário, a substituição das térmicas por baterias poderia resultar em uma redução do custo para o consumidor final.














